Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2006
Quando as minhas Filhas eram pequenas eu jogava com elas um jogo intitulado "quem é quem". Perguntava: tem cabelo loiro ou castanho? tem óculos? tem bigode? até conseguir identificar a personagem que figurava na carta por elas escolhida. Era um jogo divertido.

Lembrei-me disto agora, quando li este postal do meu jovem (penso eu) Colega do Porto sobre este "anúncio" do Diário Económico.

Afirma o meu Colega "a sério: Esta oferta levanta-me sérias e legítimas dúvidas, porque é claramente mais um passo no caminho do estabelecer diferenças na profissão, que irão provocar à la longue cisões na Advocacia e por inerência na Ordem dos Advogados".

Ainda que me pareça que as "diferenças" em nada são determinadas por estas "ofertas", confesso que não me apetece, agora, contrariar tal opinião, e muito menos as "sérias e legítimas dúvidas" que a "oferta" suscita ao meu Colega.

Em vez disso prefiro transcrever um excerto de uma dissertação de um Ilustre Decano, igualmente do Porto, intitulada "O direito nas curvas da vida", que encontrei aqui .

Escreve o Decano:
"A época dos grandes advogados, dos chamados “ténors”, dos célebres “patrons”, está em vias de extinção. “Abogados de oro” (Rámon Tigeras) dos enormes escritórios de negócios, de influências, de lobbies e até de politicas ganham cada vez mais corpo na Europa.
Os tempos actuais não são de moderação mas, sim, de mudança, de viragem, de desafio, em que o futuro da advocacia é um processo radicalmente aberto e in-determinado em permanente movimento de auto-superação.
Bem sei (até porque algumas coisas tenho escrito sobre o tema) que os 'signos do nosso tempo' são os da 'crise do futuro'. Mas é preciso que nos libertemos de uma dupla ilusão que dominou a 'intelligentzia' desde há décadas: a nostalgia de um passado findo assim como a esperança de um futuro radioso.
É que se, ontem, tínhamos o direito de ser fatalistas por optimismo, doravante devemos ser audaciosos por pessimismo. Nesta consciência crítica perpassa um optimismo pessimista, corrijo, um pessimismo optimista (enganei-me de propósito), uma visão desoladora com um mínimo de esperança."


Apesar de "o inventário da minha bagagem" de 22 anos de profissão ser infinitamente menor, em todos os sentidos, que o proporcionado pelos "47 anos de ofício como advogado, a mais difícil e perigosa das profissões (Carnelutti)" que o nosso Decano já leva, acho que consigo entender o que ele afirma.

Talvez por isso, cada vez que folheio revistas como essa do "quem é quem" da advocacia, procuro aquela disposição que usava para disputar o jogo homónimo com as minhas Filhas: é louro ou moreno? tem bigode? é careca? Depois, arrumo-as na prateleira, e concentro-me nas tarefas que me fazem seguir em frente, pela via que eu escolhi.


publicado por Nicolina Cabrita às 00:26 | link do post | comentar

4 comentários:
De Nicolina Cabrita a 1 de Dezembro de 2006 às 17:40
Há advogados em prática isolada que de advogados só têm a cédula, porque a sua natureza é de verdadeiros mercenários.
E há grandes Advogados nessas sociedades, de moral e consciência irrepreensíveis, que figuram na revista. Posso afirmá-lo com segurança, porque conheço muito bem alguns deles.
Por isso, peço-lhe que não leve a mal que lhe diga que para compreender o que se passa vai ter de ir muito para além do que está à superfície.
Um abraço


De Je Acuzi a 2 de Dezembro de 2006 às 14:27
(...) Os advogados de prática isolada e de escritório que ainda entendem os honorários como derivados de honore, têm o meu respeito.(...)
Julgo não ter particularizado e ir no sentido do que afirma na sua resposta. Jamais escrevi e quis dizer que todos os que estavam na revistam eram isto ou aquilo. O que escrevi foi que “os tais colunáveis” e nesses não incluí todos os que figuram na tal separata, é que me envergonhavam e isto porque há colunáveis com gabarito e há aqueles que tentam apanhar a onda do momento.
Jamais lhe levaria a mal qualquer reparo, por diversos motivos, ressaltando o da estima que efectivamente sinto por si.
Quanto a mergulhar mais em determinado assunto vou seguir o seu conselho e ficar-me na ignorância da superfície, assim terei a certeza que, ao menos, me aperceberei do aproximar do tubarão pela barbatana dorsal, para além de que seja qual for profundidade a que se mergulhe o oxigénio terá sempre de ser artificial e daí preferir o da superfície.
Reparo, aqui com infindável tristeza, que as mensagens são pois codificadas, destinadas a uma estirpe iniciada em ritos e práticas que desconheço, pelo que encerro aqui o meu contributo escrito, nunca o de visita, pois nunca fui de bater a porta.
Um abraço


De Nicolina Cabrita a 2 de Dezembro de 2006 às 18:13
Acho que faz mal em encerrar o seu contributo.
Em primeiro lugar porque é possível atingir a profundidade sem recurso a garrafas de oxigénio. Basta estar disponível para aceitar que isso só é possível depois de muito treino, e bem assim que as competências melhoram significativamente à medida que aumenta a experiência.
Depois, penso que os tubarões não atacam em águas pouco profundas exactamente porque o seu método de ataque é surpreender a vítima à superfície, nadando até ela vindos das profundezas.
E todas as actividades humanas têm os seus códigos, os seus ritos, as suas práticas, e entre todas, os ofícios têm ainda mais que as outras. Daí a necessidade do estágio.
Um abraço


De bambinofr@gmail.com a 3 de Dezembro de 2006 às 13:18
Cara Dr.ª Nicolina Cabrita


Muito agradecido pelos relatos e por um aprofundar das questões que, confesso me passaram bem a leste. Talvez tenha sido assim por não ter seguido um conselho seu anterior de ler o Forlegis e manter-me meramente espectador. O mesmo erro não se repetirá.
Quando afirma, e bem, que a frase do bastonário Dr. JMJ me chocou, a razão é simples e prende-se com o gostar ou não gostar das pessoas. Com o admirá-las ou simplesmente torná-las indiferentes, opacas e distantes. Não foi o caso com o bastonário Dr. JMJ.
Habituei-me a vê-lo na televisão em grande estilo, segui-lhe a entrevista dada num programa da TV2 e li-lhe alguns artigos que escreveu. Enfim, constituía para mim um paradigma confiável e a sua postura era um pergaminho que impunha seguir-se.
Sempre fui um homem que pugnou por certos valores, crente na imunidade de que nos devemos revestir para suportar e ser indiferente a ataques de baixo-relevo. Em suma, o manter o estilo e a pose em todas e quaisquer circunstâncias, retirando protagonismo a quem só o procura por critérios narcísicos.
Depois veio a entrevista polémica e só segui o caso pela janela que a imprensa abre. Os artigos de opinião e outros comentários surgiram e fui formando uma opinião com o que me era perceptível, já que não possuo o dom da adivinhação. Pareceram-me então de valência substancial as opiniões escritas do Dr. António Arnaut e ainda o são algumas, pois sempre fui um pouco avesso a seguidismos incondicionais.
Mais tarde veio a tal audiência pública e ainda acreditei ser possível o Bastonário Dr. JMJ reverter as coisas, pois a imprensa que durante dias me “condicionou” a opinião, assim como a todo o público, estaria lá e o desmascarar de algo que nem eu sabia o quê surgiria naturalmente. Era uma questão de dar palco ao homem por quem sentia alguma admiração. Quis a agenda que não estivesse nesse dia em Lisboa, senão teria lá ido.
Confesso que o eco que a frase teve na imprensa me chocou, nunca esperaria tal do Dr. JMJ, não era essa a imagem que tinha dele e sabe como a entendi, repito mais uma vez, com os dados que tinha em mão? Como de uma arrogância e soberbas desmedidas, como um cair de máscara, como um revelar final à Hitchcock, impróprio de um homem da sua estatura pública e de advogado. Como poderia aquele homem alguma vez ter sido o bastonário de uma Ordem que pugna pelo dever de urbanidade?
Então veio a sua explicação e o seu conselho anterior, sábio, de que a frio se apreciariam melhor os factos. Que razão tem minha amiga, permita-me a confiança, jamais abusiva.
Hoje, mesmo após o deixar da mensagem anterior aqui de que encerrei o meu contributo escrito, renovo a minha opinião sem vergonhas ou derrotas morais e continuarei, com o seu agreement, a comentar neste espaço. Cometi um erro que sempre, enquanto formador noutras paragens, aconselhei outros a não cometer, i.e., para melhor compreensão, iniciava a minha área de formação para avaliadores/analistas de situação no terreno com a letra de um tema de Phill Collins a passar em power point, com o som de fundo desse excepcional tema – The both sides of a story.
Hoje, no domínio de mais informação, naturalmente a opinião é outra, embora aquela frase ainda me faça alguma comichão nas entranhas. Entendê-la-ei como um grito de “Basta” e assim ficará, pois, em boa verdade, não será essa frase que manchará o trabalho e a imagem do Dr. JMJ.
Aprendi mais uma coisa e assim farei a leitura da situação. Merecerá sempre o meu respeito quem suportou ataques públicos durante meses e só no lugar próprio, perante quem de direito, exerceu o seu direito de resposta.
Sabe, cara amiga e FORMADORA, não sou um homem de ressentimentos, embora nunca esqueça quem, num momento ou noutro, se cruza na minha vida e ou a melhora ou pura e simplesmente me é indiferente. Nesta condição meramente humana cometo os meus erros e tento não os repetir, mas aprendi também que condicionar e confinar determinado tipo de informação a certos círculos, inexoravelmente terá consequências quase sempre nefastas, pois a informação veiculada é a que pode ser trabalhada e assimilada. A que não chega não existe, ainda que alicerçada numa verdade inquestionável.
Com estima e consideração.


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