Sábado, 9 de Fevereiro de 2008
Hoje, pela hora do almoço, numa livraria chamada «Pó dos Livros», que fica ali para os lados da Marquês de Tomar, encontrei um pequeno tratado sobre «A Arte de Calar», que um tal Abade Dinouart escreveu e fez publicar no lonjínquo ano de 1771 [ed. Martins Fontes, Colecção Breves Encontros, São Paulo, 2002].

Escreveu o Abade, no prefácio:
«O Cardeal Le Camus dizia ao padre Lamy de l'Oratoire, quando ele lhe ofereceu uma de suas obras, cujo título é 'A Arte de Falar'. "Eis, sem dúvida, uma excelente arte; mas quem nos dará a arte de calar?" Seria prestar um serviço essencial aos homens dar-lhes os princípios dessa arte e fazê-los convir que é de seu interesse saber colocá-los em prática. Quantos se perderam pela língua ou pela pena! Ignora-se que muitos devem a uma palavra imprudente, a escritos profanos ou ímpios, sua expatriação, sua proscrição e que seu infortúnio não pôde ainda corrigi-los?
O furor de falar, de escrever sobre a religião, sobre o governo, é como uma doença epidêmica, que contamina um grande número de cabeças entre nós. Os ignorantes, como os filósofos atuais, caíram numa espécie de delírio. Que outro nome dar a essas obras que nos sobrecarregam, das quais a verdade e o raciocínio estão proscritos, e que só contêm sarcasmos, zombarias, contos mais ou menos escandalosos? A licença é levada a tal ponto que só se pode ser considerado erudito, filósofo, desde que se fale ou escreva contra a religião, os costumes e o governo.
(...) Seja qual for o sexo e a condição dos que venham a ler esta instrução, cada um poderá tomar, do que se diz em geral, a parte que lhe toca. Não cabe a mim fazer tal aplicação e, ainda que eu tivesse essa liberdade, não poderia servir-me dela sem pecar, talvez, contra as regras do silêncio que proponho aos outros.
Como há dois meios para se explicar, um pelas palavras e outro pelos escritos e pelos livros, há também duas maneiras de calar; uma contendo a língua, outra contendo a pena. Isso me dá oportunidade de fazer as observações sobre a maneira como os escritores devem permanecer em silêncio ou se explicar em público por seus livros, segundo esta advertência ao sábio: "Há um tempo de calar e um tempo de falar"
»

Há pouco, quando dava a minha volta pelos «sítios» que diarimente visito, constatei que ainda há quem pratique esta arte. Bem haja por isso!


publicado por Nicolina Cabrita às 00:02 | link do post | comentar

2 comentários:
De Fernando Manuel Ramos a 11 de Fevereiro de 2008 às 14:14
Um texto de uma actualidade e certeza brilhantes. De forma mais modesta, relembrando (sempre) as minhas origens, recordo uma ensinança do meu pai que rezava mais ou menos assim:
- Já te perguntaste porque é que tens dois olhos, dois ouvidos e uma só boca?
Ainda hoje, tentando manter sempre esta ensinança e apesar do meu feitio extrovertido, faço um exercício sério em coisas sérias, para ver bem e em amplitude larga, ouvir em estéreo e só falar quando é mesmo preciso.
Boa semana.


De rouxinol de Bernardim a 11 de Fevereiro de 2008 às 18:10
Há a incontinência verbal, de facto.

Mas também há quem faça panegíricos à «prudência», à «omertá», para intimidar os outros! Estilo: «se não calas, levas!»

Havia um que vociferava: «Quem se mete com o PS, come!»


Comentar post

mais sobre mim
Dezembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

...

Há vida além da Ordem...

de leitura obrigatória...

A quem interessar...

A vingança dos fracos

FICHA DO DIA

Uma questão de fé? Então....

Uma questão de fé? Afinal...

Uma questão de fé?

Já agora, valia a pena pe...

arquivos

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

tags

adelino da palma carlos

advocacia

alberto luís

alfredo gaspar

angelo d'almeida ribeiro

antónio marinho e pinto

antónio osório de castro

joão pereira da rosa

jorge ferreira

josé alves mendes

josé antónio barreiros

josé carlos mira

josé miguel júdice

justiça

marco aurélio

notas soltas

ordem dos advogados

pedro alhinho

prémios

reforma de bolonha

renato ivo da silva

ricardo sá fernandes

rogério alves

singularidades nuas

teresa alves de azevedo

vital moreira

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds